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Jo Uri: Rabiscos com brilho e nostalgia

Jo Uri cria tatuagens lúdicas no estilo de rabisco, inspiradas em Pokémon e Ghibli entre outras referências — frequentemente utilizando tinta UV para adicionar um brilho oculto aos seus desenhos nostálgicos.

Jo Uri (@jo_ul) é um tatuador de Seul que dá vida a personagens icônicos através de suas tatuagens no estilo 'doodle' ou rabisco em português. Inspirado por desenhos animados e animais, seu trabalho transmite leveza e expressividade, transbordando personalidade — como se fossem esboços lúdicos tirados diretamente de memória. Mas há um diferencial surpreendente: muitas de suas tatuagens utilizam tinta UV (ultravioleta), revelando detalhes que só se tornam visíveis sob luz negra.

A trajetória de Jo na tatuagem começou com um desejo pessoal: ele queria uma tatuagem no estilo rabisco, mas não encontrava ninguém que trabalhasse com essa estética. Então, ele mesmo pegou uma máquina e hoje é conhecido por reinterpretar personagens icônicos — como Bob Esponja, Pokémon, Hora de Aventura, Snoopy, Studio Ghibli e Shin-Chan — por meio de sua linguagem visual única. Seu estilo, minimalista e, ao mesmo tempo, expressivo, conquista clientes que buscam tatuagens que sejam divertidas e, de forma sutil, carregadas de significado.

Nesta entrevista, conversamos com Jo Uri sobre seu processo criativo e o prazer de fazer desenhos descontraídos na pele, explorando como a tinta UV e a nostalgia pela cultura pop moldaram sua abordagem única na tatuagem.

Você começou a tatuar porque ninguém estava fazendo o estilo rabisco que você curtia. O que realmente te levou a dar esse passo?

Sinceramente, cansei de esperar. Eu tinha todos aqueles personagens e ideias na cabeça, mas ninguém estava tatuando daquele jeito — pelo menos não da forma como eu imaginava. Então, comecei a fazer esboços só por diversão, e, um dia, um amigo perguntou: “Por que você não tatua isso?”. Aquele momento foi como uma virada de chave. Eu não via ninguém fazendo algo igual e pensei: talvez eu deva me tornar essa pessoa.

O que há no estilo de desenho tipo rabisco que te atrai mais do que outros estilos de tatuagem?

Me passa a impressão de ser algo autêntico. Desenhos informais — os chamados rabiscos — são imperfeitos, espontâneos e um tanto caóticos; e eu adoro isso. Eles me lembram a infância, ou aquele hábito de rabiscar em cadernos quando ninguém está olhando. Há algo de profundamente humano nisso. Outros estilos podem ser belos e bem-acabados, mas, para mim, esses rabiscos parecem ter vida.

Como você equilibra a representação de um personagem icônico ao mesmo tempo que preserva o seu próprio estilo de desenho

É isso que torna o desafio divertido! Tento captar a essência do personagem, não apenas a sua forma. Por isso, em vez de copiar cada detalhe, pergunto a mim mesmo: o que torna este personagem tão querido? Desajeitado? Triste? Estranho? Depois, trago isso para o meu universo de rabiscos — talvez com linhas tortas, olhos assimétricos ou formas peculiares. É como se eles tivessem passado pela minha cabeça e saído vestindo roupas engraçadas.

O que te inspirou a começar a usar tinta UV, e como você decide quais partes de uma tatuagem vão brilhar com a luz negra?

Eu queria incluir uma pequena surpresa, um segredo. A tinta UV permite adicionar essa camada oculta, como uma segunda personalidade que só se revela sob uma luz específica. Costumo usá-la em pequenos detalhes: estrelas, corações, brilhos ou mensagens escondidas. O efeito precisa ser lúdico, sem parecer algo forçado — como uma cena extra em um filme.

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Você costuma criar projetos com base nas solicitações dos clientes ou as pessoas lhe dão liberdade criativa?

Eu crio e compartilho muitos personagens e situações engraçadas no meu próprio estilo de desenho; por isso, a maioria dos clientes me procura não tanto para solicitar criações totalmente inéditas, mas sim para combinar elementos do meu trabalho que eles já apreciam. Eles costumam dizer algo como: “Adoro este personagem, mas será que poderíamos colocá-lo nesta outra situação?”. Isso me proporciona muita liberdade criativa, mantendo, ao mesmo tempo, uma dinâmica bastante colaborativa.

Como é o seu processo ao criar uma nova tatuagem? Você faz o esboço no papel ou digitalmente? Costuma postar seus rascunhos no Instagram para que os clientes possam escolher?

Geralmente, faço esboços digitais no meu iPad. É mais rápido para fazer ajustes e testar cores. Às vezes, compartilho desenhos no Instagram para que as pessoas possam escolher, mas também guardo muitas ideias exclusivamente para atendimentos presenciais. Tudo depende da viagem, da "vibe" e do que me sinto empolgado para desenhar no momento.

Você costuma tatuar personagens como Bob Esponja, Pokémon e figuras queridas das obras do Studio Ghibli. O que te atrai nessas animações específicas? Essas escolhas surgem de suas próprias memórias de infância ou são, em sua maioria, motivadas por pedidos dos clientes?

Sinceramente, as duas coisas. Muitas delas vêm da minha própria infância, e outras são apenas coisas que as pessoas trazem para mim. Acho que as pessoas se sentem atraídas por tatuagens que trazem uma sensação familiar — e eu adoro dar a essas memórias um toque novo, com um estilo de desenho meio inusitado. É algo nostálgico, mas com traços propositalmente desleixados e cores vibrantes.

A cultura da tatuagem em Seul influenciou a forma como você trabalha ou o tipo de cliente que você atrai?

Com certeza. Tatuar em Seul me ensinou a trabalhar com precisão e rapidez, especialmente porque muitos trabalhos são pequenos e o tempo é limitado. Além disso, os clientes coreanos costumam valorizar traços limpos com um toque diferenciado; por isso, aprendi a manter meus desenhos com um ar lúdico, porém intencional. Essa disciplina me acompanhou, mesmo quando viajei.

Seu estilo é, ao mesmo tempo, nostálgico e moderno. Você já pensou em evoluí-lo — talvez com tatuagens maiores?

Às vezes! Recentemente, fiz alguns trabalhos maiores, e é divertido ver os desenhos ganharem mais espaço e respirarem. Mas, no fundo, ainda prefiro aqueles momentos pequenos e peculiares — aqueles que, se você piscar, acabam passando despercebidos. Dito isso, estou aberto a deixar que o meu estilo evolua naturalmente; nada de forçar as coisas.

Seu estilo é tão único e reconhecível. Foi difícil manter-se fiel a ele no início, ou as pessoas se identificaram com ele logo de cara?

No começo, a sensação era de um pouco de solidão. Eu não tinha certeza se as pessoas iriam “entender”. Mas, assim que publiquei algumas e vi as pessoas rindo ou reagindo emocionalmente, isso me deu coragem para continuar. Agora, o estilo de desenho parece ser a minha própria linguagem, e fico muito feliz que as pessoas também se identifiquem com ele.

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